terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Minha Mãe - Meu Tesouro Cap. 1 Recordações da Infancia (cont)

Rolando da Escada


  Quando morei em São Paulo, descobri que a mamãe não gostava da escada rolante mas algumas vezes eu conseguia convence-la a me acompanhar porém a sua preferência era a escada fixa. Outras vezes ela ia pela escada fixa e eu pela outra. Fiquei curiosa para saber o por que disso. Então lhe perguntei curiosa:
  ─ Mamãe, porque a senhora não gosta de usar a escada rolante?
 ─ Não sei, filha. Só sei que me corre um frio pela espinha quando vejo a escada rolante, Respondeu-me.
  Fiquei muito admirada com esta novidade, essa limitação de minha mãezinha. Para mim, não havia nada que ela não conseguisse fazer, ou que não quisesse, ainda com tal sentimento. Eu pensava que não houvesse barreiras para ela!
     Que surpresa!
 A mamãe era para mim uma fortaleza. Criou-me com muitas dificuldades, guerreou com o mundo. Era uma heroína! Meu pai falecera quando eu tinha 4 anos e meio, e desde então os problemas, que já eram enormes, foram acrescidos pela falta deste ente tão querido... Mas, a mamãe estava sempre “a postos”, lutando pela nossa vida. Se ela trabalhasse, nós tínhamos com que sobreviver, quando faltava o serviço, aí tudo se complicava. As dificuldades eram enormes, mas, o seu amor e carinho eram maiores! Agora eu descubro que minha valente mãezinha sentia “medo” e de uma simples escada rolante?! Impossível! Então, conversando com ela, falei-lhe que procurasse lembrar de algum acontecimento de sua infância que havia lhe marcado tão profundo e que talvez isso estivesse atrapalhando.
Passaram-se alguns meses e ela veio novamente a São Paulo, para me visitar, o que me fazia muito feliz. Quando entramos na Estação da Luz, metrô de São Paulo, dirigi-me para a escada fixa a fim de acompanhá-la e também tornar realidade o que eu decidi em minhas reflexões anteriormente.
Enquanto passavam os dias, eu lembrei do medo de minha mãe e o quanto eu insistia com ela para me acompanhar na escada rolante, então, minha consciência pesou... Como eu estava sendo egoísta! Se a mamãe não se sentia bem, andar na escada rolante, porque eu não podia acompanhá-la pela fixa?   Por que deveria prevalecer a minha vontade? Por que eu tinha que forçá-la a fazer algo que ela não se sentia bem? Como eu estava sendo egoísta!!!  Então decidi que da próxima vez que ela viesse para me visitar, e sempre que fosse preciso, iria acompanhá-la, com muito prazer, pela escada fixa. Assim decidi, assim procurei agir. Naquele dia que ela chegou, eu fui buscá-la na Rodoviária que ainda era em frente a Estação Julio Prestes (estação de trens) e quando chegamos na Estação da Luz, fui em direção a escada fixa para, com muito prazer, acompanhá-la, como eu havia decidido. Mais uma vez minha mãezinha me surpreendeu – ela dirige-se para a escada rolante e insiste comigo. Mas, e o calafrio da espinha? Então surpresa, perguntei o que havia acontecido, diante de sua coragem surpreendente. Agora era ela quem insistia por descer pela tão temida escada, de outrora. Então me respondeu:
─ Tu disseste (ela usava a 2ª pessoa do singular) para eu me lembrar de algum fato ocorrido em minha infância que me marcou, pois me lembrei...
Assim dizendo, passou a me contar, mais uma vez a sua história.
Ela estava com 4 anos de idade aproximadamente, quando tentou ajudar a sua mãe recolher lenha. Para chegar até a cozinha de sua casa, havia uma escada alta e muito em pé. Era muito perigosa para qualquer pessoa adulta quanto mais para um criancinha de apenas 4 aninhos. Muito faceira segurou uma acha de lenha e começou puxá-la escada acima. Como estava pesado aquele pedaço de pau! Quando faltavam 1 ou 2 degraus para chegar ao topo, ela resvalou o pezinho e rolou escada abaixo. Isto ficou gravado no seu subconsciente e a cada vez que ela deparava com a escada rolante, o seu pensamento inconsciente trazia o sentimento que teve ao rolar da escada. Lembrando-se disso, venceu o medo e o calafrio da espinha passou.


“Eu te Pego”

Outro fato que marcou, aconteceu mais ou menos na mesma época, talvez um pouco mais tarde. Naquele tempo, uma doença que apavorava, todas as pessoas, era a demência. Quando se ventilava uma notícia que havia um louco nas proximidades, todos corriam se esconder. Faz bastante tempo que a mamãe me contou esta história e eu não lembro a idade dela nessa época, quando ocorreu esse fato.
Naquele dia, a sua mãe ficou sabendo que havia um louco nas proximidades e que ele iria passar pela sua casa. Ele estava perambulando pelas ruas da cidade e parecia muito perigoso. Então sua mãe, aflita e nervosa repentinamente saiu catando os filhos que brincavam próximo, subia correndo pela escada e os levava para dentro jogando-os porta a dentro. Mas ainda faltava um, o mais velho, saiu em desespero a procura dele e o encontrou sob a escada.


Correu com ele nos braços e o jogou para dentro fechando a porta atraz de si, mais depressa que pode. No mesmo instante, na rua, passou um homem com machado nos ombros, gritando...
─ Eu te peééégoooo... Eu te peééégoooo... Eu te peééégoooo...
     O susto que a pequena Elza levou foi tão grande, que esta triste imagem ficou gravada para sempre. Quando adulta bastava ouvir que alguém era “louco”, ou só a palavra em si, fazia que de imediato voltasse a sua mente a cena do homem demente. A figura sinistra daquele pobre homem gritando, com um machado nos ombros, fazia correr-lhe o frio na espinha e sentir o mal estar novamente.

Pobre  Wandinho...


       Muitas vezes pensamos que uma criancinha não se importa com as coisas, com determinados fatos, e que irá esquecer quando crescer. Estamos enganados. Um acontecimento marcante na vida de uma criancinha pode ditar o seu futuro. Tantas vezes não entendemos o porquê de determinadas reações nossas ou de alguém com quem convivemos, mas, se buscarmos a fundo, iremos encontrar a raiz dessas ações incompreensivas. A mamãe foi uma pessoa muito carinhosa, com muito amor no coração, que mesmo ferida na alma sabia chorar com as mesmas pessoas que a feriam. Quando ouvia do sofrimento ou da dor causada por terceiros a outras pessoas, parecia ela mesma sentir a dor sofrida. Quantas vezes diante da televisão e de noticiários eu ouvia ela murmurar: “Ui meu Deus! Que tristeza!”
       Ainda, por volta dos seus 4 aninhos de vida, brincava com as crianças da mesma faixa etária, suas vizinhas. Mas havia um negrinho dentre eles que era seu amiguinho especial. Seu nome era Wandinho, como lhe chamavam todos.
      Certo dia sua mãe acendeu o fogo para aquecer a água a fim de fazer um café, notou que precisava ir até a mina buscar. Assim fez deixando em casa o seu filhinho e a sua amiguinha Elza. Atraídos pelas brasas do fogão, o pequeno garoto pegou um guarda-chuva e foi mexer no fogo. O fogo pegou no guarda-chuva que subindo tomou o corpo do pequeno menino, roubando-lhe a vida ante os olhos atônitos da sua amiguinha. Quando a sua mãe retornou, nada mais pode fazer. O querido Wandinho morreu queimado. Quando ela estava na escola, alguns anos mais tarde, encontrou a mãe do Wandinho, e perguntou:
      -- A senhora não é a dona Benedita, a mãe do Wandinho que morreu queimado?
      Surpresa, a senhora confirmou ser ela mesma e respondeu:
      -- Mas você era tão pequena e ainda se lembra?
      Sim ela lembrava e sempre se lembrou até mesmo depois de doente e idosa, a ponto de ainda chorar por ele.
      Assim Deus não se esquece de Seus amigos.

      Como é bom ser amigo de Deus!




(visite o meu segundo Blog: tidefleury.blog.com  )


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